E o vento sopra com força
Sei que o vento leva todos os problemas para longe quando estamos em plena paz de espírito. Mas nem sempre podemos depender dele. Expor o inquietante é um meio facílimo de despejar o que nos incomoda. Mas geralmente esperamos pelo inflamar da coisa. Agüentar até o último momento e explodir com intensidade suficiente para mexer com tudo e com todos que estão a sua volta. Eles não tem culpa... Ninguém tem culpa.
Sabia que estava enrolado, mas não sabia o quanto. Não sabia se cumpria com o que prometia ou com o que jurava. Entre todos esses problemas uma coisa era certa, precisava de uma bebida para me acalmar. Acalmar não, fazer fluir as idéias. Fechei a porta da minha espelunca e decidi caminhar para o leste. Quem sabe o leste seria uma boa escolha?
Vaguei a tarde toda. Resolvi no meio do caminho comprar a bebida e caminhar pela cidade. Seria melhor para mim. Enquanto passeava notei quantas pessoas estavam perdidas como eu. No mínimo umas 10 nos primeiros quinze minutos de contagem. Vazias. Sem nenhuma determinação. Pensando somente em seus imundos sofás e o interessantíssimo programa de fofocas, que naquela hora, já deveria estar passando na tv.
Mas não esqueci dos problemas que me preocupavam, todas aquelas incertezas estavam me deixando louco. O mais preocupante eram as conseqüências, se eu não cumprisse com o prometido iria pagar caro. Muito caro.
Segui degustando o uísque barato, vagando pela cidade cinzenta. Estava abafado, parecia que ia chover. Se passaram mais alguns quarteirões e a bebida chegou ao fim, arremessei a garrafa dentro de um latão de lixo. Espatifou-se em míseros cacos de vidro. E eu fiquei parado observando os pedacinhos daquele material brilhante. Quando dei por mim, um flash veio em meus pensamentos, sabia que aquilo poderia acontecer com a minha cabeça. Mil pedaços...
Sentei no banco da praça. Bela praça. Um grande gramado, onde crianças corriam com seus cães. Babás, com suas crianças, sentadas a sombra. E eu ali... estatelado em um banco qualquer, em um lugar qualquer, em uma cidade qualquer e pensando em uma vida qualquer...
Avistei a ponte, bem ao longe. Saí correndo com muito entusiasmo, parecia que tinha a metade da minha idade. Parei no meio da ponte. Braços abertos, olhar no horizonte e pensamentos puros. Aquela enorme quantidade de água aos meus pés, azul, brilhante, purificante e aconchegante como o colo materno. Saltei, senti o vento mexendo meus cabelos, acariciando meu rosto. Estava em plena paz. Cai na água, não sentia dor, nem pavor, nem ódio. Sentia que a minha vida tinha acabado bem. Ninguém veio a terra pra sofrer. Estava em plena paz...
Acordei com os primeiros pingos de chuva e já estava anoitecendo. Voltei a caminhar de volta ao meu cubículo de sofrimento. Não sabia se passaria desta noite ou de amanhã de manha, mas tinha uma certeza, todos nós pagaremos por nossos pecados. Não sei como, mas pagaremos.
Escrito por Christofer Silva às 02h30
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